Preparação de cabos de áudio
Na construção de cabos, a soldadura recebe toda a glória, pois é a parte que parece exigir técnica: toda a gente se preocupa com ligas de solda, temperaturas do ferro e juntas brilhantes. Contudo, um cabo que dure uma vida inteira constrói-se antes de o ferro sequer ser ligado, e nenhuma técnica de soldadura compensa uma preparação descuidada.
A forma como se faz o stripping dos condutores e se revestem as montagens é o que realmente determina se um cabo aguenta anos ou falha em seis meses. Aqui fica a forma como preparo os meus cabos, porque é que certos materiais importam, e porque uso revestimento mecânico em vez de termo-retráctil.

Imagem 1. Um cabo de áudio depois do stripping, antes e depois de ser preparado.
1. Escolher as matérias-primas certas
Um bom cabo começa muito antes de se tocar num fio, pois começa na escolha de componentes decentes e em perceber o que se está realmente a comprar.
Marcas e fornecimento
Sempre que posso, compro local ou regional, pois os portes e as taxas alfandegárias acumulam-se rapidamente. Na Europa, duas marcas cumprem bem o trabalho:
- Sommer Cable: Fabricada na Alemanha. As minhas escolhas habituais são o SC-Isopod SO-F22 e o multipair SC-Mistral MCF.
- Van Damme: Uma marca britânica, com vários modelos fabricados na UE. A gama Blue Series Studio Grade é boa para fiação geral, e o Van Damme White Line AES/EBU 1 pair LSZH Ecoflex funciona muito bem para interligações. Com o Brexit ficaram um pouco mais difíceis de arranjar na UE, mas valem o esforço.
Escolha do condutor: pureza e diâmetro
Antes de olhar para a bainha, olha-se para o cobre.
Pureza (OFC): Optar sempre por OFC (cobre isento de oxigénio). O argumento sonoro a favor do OFC discute-se sem fim nos círculos hi-fi, contudo o argumento mecânico não se discute, pois o OFC oxida muito mais lentamente, ou seja, o cabo não vai ficar verde e quebradiço dentro da bainha daqui a cinco anos.
Diâmetro/Secção: Para interligações de estúdio ao nível de linha, o ideal são condutores à volta de 0,22mm² a 0,25mm² (24 AWG a 23 AWG), pois são grossos o suficiente para manter a resistência baixa e aguentar o manuseamento, e finos o suficiente para caber nos copos de soldadura dos conectores standard.
Multifilar vs. núcleo sólido: Para trabalho de estúdio, sempre multifilar. O núcleo sólido serve para instalações permanentes em paredes, contudo qualquer cabo que vá ser dobrado, enrolado ou manuseado precisa de cobre multifilar, sem excepções.
Capacitância
Nas fichas técnicas, a capacitância (pF/m) é o número a que prestar atenção, pois um cabo comporta-se como um condensador e, combinado com a impedância de saída do equipamento, cria um filtro passa-baixo RC, ou seja, tiragens mais longas e maior capacitância significam mais atenuação nas altas frequências. Se um fabricante não publica a capacitância, está a dizer alguma coisa, e o melhor é acreditar e passar à frente.
Materiais de bainha e LSZH
A bainha afecta a flexibilidade, a durabilidade e a segurança.
- PVC: O standard. Flexível, barato e fácil de decapar. Funciona bem para a maior parte das situações em estúdio.
- PUR (Poliuretano): Resistente, à prova de abrasão e de corte. Desnecessário para instalações permanentes em estúdio, mas excelente em palco, onde os cabos são pisados constantemente.
Sobre o LSZH, vale a pena perceber o que é, pois o termo anda muito mal usado. Não é um material, é uma classificação: o PVC contém cloro, que é um halogénio, enquanto as bainhas LSZH usam compostos alternativos, normalmente poliolefinas retardantes de chama, sem halogénios, ou seja, em caso de incêndio não libertam gases tóxicos nem fumo negro espesso.
A abordagem "não blindado"
Os blindados de malha pesada são duráveis, contudo acrescentam volume, rigidez e muita capacitância.
Para tiragens curtas de estúdio com ligações balanceadas, uso o que se costuma chamar a abordagem "não blindada". Para ser claro, fio de áudio a granel verdadeiramente sem blindagem praticamente não existe, pois quando os técnicos de estúdio dizem não blindado para interligações, querem dizer foil shield com drain wire.
O foil garante cobertura total contra RFI, contudo, estruturalmente, o cabo comporta-se como se não tivesse blindagem nenhuma. A preparação é rápida (rasga-se o foil, isola-se o drain wire e solda-se), a capacitância cai bastante, o cabo mantém-se flexível, e é perfeito para racks e instalações permanentes.
2. Stripping com precisão
Aqui a consistência importa mais do que a velocidade, pois um corte nos fios de cobre internos durante o stripping cria um ponto fraco que mais tarde ou mais cedo vai ceder. Cede sempre, e tem uma preferência notável por ceder no único cabo do loom a que já não se consegue chegar.
As ferramentas
Não há links de afiliados aqui. As ferramentas que uso são da Knipex, e a razão é simples: são consistentes e têm uma ferramenta para cada parte do trabalho; corte, stripping de condutores internos finos, stripping de cabos individuais mais grossos, stripping de bainhas exteriores pesadas. Seja qual for o diâmetro com que se está a trabalhar, existe uma Knipex para isso. A foto abaixo dá uma boa ideia da variedade que tenho na bancada.

Imagem 2. Algumas das minhas ferramentas de stripping, todas da Knipex, para bainhas interiores e exteriores, para cabos de diferentes diâmetros (desde cabos finos individuais até looms multicondutores).
Comprimentos de stripping
- Bainha exterior: Strip de 15mm a 20mm. A braçadeira interna do conector tem de agarrar na bainha exterior espessa, não nos fios internos finos.
- Condutores internos: Strip de 3mm a 4mm. Apenas cobre nu suficiente para preencher o copo de soldadura.
3. Revestimento profissional: o sistema Hellermann
Nunca fui fã do termo-retráctil, pois precisa de calor que pode amolecer precisamente o isolamento dos condutores que se teve tanto cuidado em não danificar, e tapa completamente a junta soldada, ou seja, se algo correr mal mais tarde não há forma de o ver. Usar termo-retráctil numa junta é como pintar por cima de uma parede rachada: não se resolve nada, apenas se deixa de ver o problema.
Em vez disso uso o sistema de revestimento mecânico Hellermann. A sleeve vai sobre a transição onde a bainha exterior termina e dá ao cabo suporte mecânico real exactamente onde é necessário.
Ferramentas, sleeves e lubrificação
É preciso a ferramenta Hellermann SS para as aplicar. É uma ferramenta de expansão de três pontas que estica a sleeve para que se possa deslizar sobre o cabo.

Imagem 3. Ferramenta Hellermann SS a inserir uma sleeve num cabo de áudio.
Para a maioria das aplicações uso as sleeves H20 (referência PRSH20X20BK). Não vêm pré-lubrificadas, por isso é preciso uma gota de óleo Hellerine M para as colocar bem. As sleeves A1 são ligeiramente maiores e já vêm pré-lubrificadas, sem necessidade de óleo; encaixam na maioria dos multipairs até 4 canais, por vezes até 8, e estão disponíveis em várias cores, o que é útil para identificar tiragens num loom complexo.
Isolamento do drain wire
Em muitos cabos de baixa capacitância, o drain wire não tem isolamento e, se ficar descoberto, pode tocar no chassis do conector e causar um curto. Coloco uma pequena manga de silicone de 1mm por cima para o manter isolado até ao pino de soldadura, e a sleeve H20 segura-a no lugar.
Preparar bem, soldar com facilidade
Construir os próprios cabos é um trabalho satisfatório, contudo os que duram uma vida inteira não se constroem à volta de solda cara mas sim à volta de uma boa preparação: escolher os materiais certos, perceber com o que se está a trabalhar e usar o revestimento mecânico adequado. Feito isso, a soldadura torna-se a parte fácil.
Isto não é uma regra mas sim um bom ponto de partida pois, como sempre, cada caso é um caso. Com calma, medir duas vezes, fazer o stripping com cuidado e colocar as sleeves como deve ser.